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A dor é mais embaixo

Por que todos os filmes que dizem ser um soco no estômago são, na verdade, um chute no saco?

O nosso futebolson

Entre as muitas coisas que eu não entendo na imprensa esportiva está a hierarquia das pautas. Vejamos o caso do jogador Keirrison, por exemplo: criou-se um longo e acalorado debate sobre a saída do atacante do Coritiba para o Palmeiras. Questões acerca dos valores da transação, do passe do boleiro ir para o clube ou para o investidor, do prazo para a sua apresentação e das propostas internacionais eram o norte daquele povo que gosta de falar do esquema tático do professor. Peraí, ninguém aborda o mais importante? O nome do sujeito é KEIRRISON!

Manchester City oferece € 105 ao Milan e € 15 para Kaká se mudar para o novo Trimalquião do futebol. Hoje tem festança na casa da bispa Sônia.

Cem anos de senilidade

Havia um personagem em Seinfeld, Uncle Leo, que tinha uma ótima desculpa quando era flagrado roubando pilhas em livrarias: “I’m old, I’m confused”. Oscar Niemeyer poderia usar a mesma escusa quando fosse visto louvando Stálin. O problema é que todo mundo sabe que ele sempre foi ridículo assim.

O indizível

Tá difícil ler qualquer coisa que tenha sido escrita nas últimas semanas. Bate um nojão que não é mole. Neguim não consegue criticar absolutamente nada sem exibir uma antologia de preconceitos que poderia ser dividida em tomos por eras. Vai condenar as atitudes do governo de Israel e cava no fundo da lama afirmações que fariam o Julius Streicher dizer: “Pô, não exagera”. Vai falar dos árabes e enxerga quase 350 milhões de fanáticos terroristas estúpidos e traiçoeiros.
Me lembro de uma vez em que conversava com um executivo graúdo de uma empresa graudérrima. Sujeito bem apessoado, que usava gravata, tinha os dentes no lugar e era responsável pelo investimento social e cultural da firma: um cidadão da zélite. Falávamos de literatura e ele me perguntou o que eu pesquisava. Contei que era literatura da Shoah. “Você é judeu?” – indagou. “Não, meu avô era libanês maronita.” – disse a ele. Mas antes que pudesse completar e esclarecer que não seguia religião alguma, o fulano sentenciou: “Ah, então você é o contrário”. E seguiu durante vários minutos perguntando, incomodado, porque diabos um goi (mais grave, um brimo) pesquisa “coisa de judeu”.
Caso específico, dirá alguém; nem foi tão grave, conheço gente pior, falará outro. Não, não é específico e é grave. O conflito entre Israel e Palestina é um dos poucos casos em que podemos generalizar. Raridade é encontrar alguém que não lamba a sarjeta na hora fazer um comentário, mesmo que seja desapaixonado.
Nessas horas a gente só quer ficar quieto, pois ler e conversar sobre isso vai dando uma dorzinha aqui ó, logo acima da boca do estombro…

Violência urbana

Estava fazendo minha caminhada matinal quando fui covardemente atacado por uma galinha d’angola. Felizmente, nada de grave aconteceu, mas aí pegam essa marginal e lhe dão o que merece e aparece a Sociedade Protetora dos Animais para defender os seus direitos. Quero ver é defenderem os diretos dos cidadãos de bem.

Guitarrismos (1)

- Cara, vou te confessar uma coisa, eu gosto do John Mayer.

- E daí, qual é o problema? O sujeito toca muito, se inspira no Hendrix e no Steve Ray Vaughan. Sonzeira.

- Não, você não entendeu, eu gosto dele como homem.

- Como assim?

- Eu tinha tudo para odiá-lo; ele é metido, faz o tipo “propositalmente largado”, é articuladinho-espirituoso nas entrevistas, namora a gostosa da Jennifer Aniston, mas…

- Mas…?

- Mas eu não consigo deixar de achá-lo charmoso.

- Fala sério.

- O que, vai me dizer que ele não é charmoso?

- Porra, tu é casado, tem dois filhos e vem com esse papo.

- É verdade! Minha mulher nem gosta dele porque eu o chamo de “meu lindo”.

- Não sacaneia. Você tem é inveja porque o cara é jovem, rico, canta bem, toca pacas, a mulherada se derrete e…

- E…?

- É charmoso.

- Viu?

- Filha de uma puta esse John Mayer.

- O “meu lindo” é foda.

Velho reaça

Outro dia vi um pequeno cartaz num muro de universidade pública: “Juventude Revolucionária”. Por que só os jovens têm direito à revolução? Quero lançar o movimento da “Decrepitude Revolucionária”. Até mesmo porque vi logo depois, num outro muro, mais um cartaz; este dizia “Fora Lula” (falta uma vírgula nisso, não?) seguido por “Agora é Lênin”. Hã? Conforme e senilidade me abraça e faz cafuné, me toca a certeza de que a juventude, revolucionária ou não, é idiota.

Retranqueiros

Os direitinhas são um saco. Começa uma crise financeira bem nutrida dessas e os caras se desesperam e desandam a tentar isentar o capitalismo; que essa zona é por causa da esquerda sabotadora do paraíso da economia de mercado, que os bancos quebram porque existem trotskistas malvadinhos prontos para usar desfibrilador na estatização. Pô, já ganharam mas morrem de medo que alguém diga que estão jogando feio e que não praticam o capitalismo-arte. Querem a unanimidade. Capitalismo é isso aí, todo mundo fumando maconha e pegando mulher, mas vira e mexe fulano faz caquinha e a gente perde aquele bônus de final de ano. Ah, direitinhas, parem de tentar anular a esquerda, ela se anula sozinha.

Borges dizia que o argentino se sente um europeu no exílio. Isso não é nada, Jorjão Luis, meu caro, o duro é ser brasileiro exilado no Brasil.

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